Dar e Receber // Abundância

Essa primeira parte do texto foi escrita antes de minha partida do Brasil (estou em Lisboa, Portugal, atualmente). A intenção era posta-lo logo antes de iniciar minha jornada mas por algum motivo não fui capaz de faze-lo. Talvez a quantidade de afazeres, tanto na saída quanto na chegada, tenham tomado meu tempo, ou talvez a partida seja mais demorada do que eu pensava, talvez seja mais demorada que o tempo de uma simples viagem de avião… não tenho certeza. De qualquer forma, ai vai:

“É chegado o grande momento…. o momento da minha vida em que eu serei apenas EU. Não serei o meu trabalho, não serei meu diploma, não serei representada por etiquetas, serei apenas EU: a Juliana. Terei sim, com muito orgulho, habilidades adquiridas ao longo do tempo, conhecimentos, histórias e experiências para compartilhar. Minha maior representante de mim mesma será minha curiosidade, que me guiará, minha bússola.

Entre portos seguros, e o desconhecido, vou “navegar” por esse mundão, observando as  (minhas) marés.

A vontade é a de explorar o mundo e dar, à ele e às pessoas no caminho, o que eu puder. É também de estar de mente, braços e coração abertos para receber, com muita gratidão, tudo aquilo que me for oferecido.”

Escrito hoje.

Parti do Brasil no último dia 12 de março. Uma passagem só de ida, sem planos, sem rumo, apenas algumas intenções. Uma delas é a de experimentar o desapego e as trocas (tanto materiais como no plano sutil).

Antes mesmo de soltar as amarras, iniciei meu processo de desapego. Vendi, emprestei, doei, quase todas as coisas que possuía (seria impossível ser livre para viajar sem rumo carregando tantas coisas): barco de competição (meu material de trabalho por anos), prancha de surf, equipamentos de camping, roupas, cama, pequenos objetos.

Já nesse momento começou a ficar claro para mim que coisas (objetos) e o dinheiro, são nada mais que energia. A energia que colocamos em um trabalho, pode ser trocada por dinheiro (energia), que pode ser trocada por comida (energia que alguém e a terra colocaram para que o mesmo cresça, seja colhido, transportado, etc). Me dei conta, ao me desapegar desses objetos, de quanta energia se encontrava estagnada, presa, sem uso. Foi bastante interessante ver ela fluindo, materiais esportivos chegando a mãos de pessoas apaixonadas pelo esporte, roupas, chegando a pessoas necessitadas, ou pessoas que precisavam renovar seu look, etc.

Esse processo de desapego me trouxe questões, me levou a me perguntar, por exemplo, como conseguiria praticar as diversas atividades que me dão tanto prazer, como os esportes na natureza (atividades espirituais para mim), estando em lugares do mundo onde não conheço quase ninguém e sem possuir nenhum dos equipamentos necessários. Me perguntava também o que teria para oferecer, às pessoas que me recebessem em suas casas, uma vez que não possuía nada (nem “Havainas” trouxe, um clássico para dar de presente).

Sabem o que aconteceu? Desde que cheguei a europa, a mais de 1 mês e meio, pratiquei diversos esportes, alguns nunca imaginados (video) e explorei muito: snowboard, caminhada com raquetes na neve, escalada, surf, acampar, etc. Num primeiro momento é de se pensar que para fazer tudo isso seria necessário possuir muitos equipamentos, “brinquedos”. Mas pude provar para mim mesma que essa realidade que criamos: ter mais = poder mais, não é única e não é necessariamente verdadeira.  Os amigos, os conhecidos e desconhecidos, a vontade inata do ser humano de dar (e receber), tudo isso me proporcionou essas experiências inesquecíveis.

Mas o que eu tenho oferecido em troca? Primeiro, tenho me colocado o mais disposta possível para ajudar em tarefas rotineiras que algumas vezes temos pouco tempo para fazer quando estamos vivendo na rotina de trabalho: ir ao mercado, limpar a casa, cozinhar, fazer o jardim. Mas de verdade, pelos feedbacks que recebi, o que sinto que mais pude oferecer, até então e sem mesmo me esforçar para isso, foi minha energia. Minha presença, a troca humana, uma conversa de coração para coração. A possibilidade de se conectar com aquilo que sentimos tanta falta no dia a dia corrido.

E é claro que me pergunto: “poxa, mas estou gostando tanto de escalar, como vou fazer pra escalar quando eu mudar de cidade e não tiver mais esses amigos para emprestarem os equipamentos?”  Respondo a mim mesma que perguntava isso antes de partir pra essa viagem, e que de fato tudo o que eu intencionava, desejava, está acontecendo, está se tornando realidade. Estou confiando na minha intenção, nas pessoas que me acolhem e confiando muito na mudança de paradigma de consumo.

E se fica a pergunta… sim, claro que tenho desejos de “ possuir” coisas, de comprar. Fui também criada dentro desse sistema que faz a gente acreditar que precisamos possuir mais e mais, mas escolhi fazer o exercício de me questionar sobre a real importância daquele objeto, se aquilo é realmente uma necessidade, ou se é um padrão de consumo que me foi ensinado ao longo de anos e anos.

Percebi, nesse pequeno período de tempo, que o mundo tem muito! Tem muito material e esse material, esses produtos podem, e devem, ser redistribuídos, compartilhados, emprestados. Eles já estão ai, e não precisamos de mais! Tem muita energia, que pode ser usada, direcionada, intencionada aos mais nobres propósitos.

Pode parecer que tenho menos liberdade por depender das pessoas para fazer coisas…. mas pergunto: Que “liberdade” é essa que nos prende a coisas? E que “não liberdade” é essa que nos proporciona a possibilidade de nos conectarmos com pessoas?

Não possuir nada é ter tudo!

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Foto por: Ju_nas.mares // Quinta da Jade – Petrópolis // Camera Olympus OM1 // 35mm

Inspirações:

Plataforma de incentivo de empréstimos de objetos (e de conexão humana): http://www.temacucar.com/

Excelente TED (sim sou viciada neles): https://www.youtube.com/watch?v=w7rewjFNiys

Por: Ju_nas.mares

3 comentários em “Dar e Receber // Abundância

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  1. Sensacional, Ju. Estamos juntas nessa! Foi essa energia que nos conectou. 😉 Tenho vivenciado esse poder da troca na minha jornada também.

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