Hoje eu brinquei

Quinta Good Muda, Grândola  // 19 de maio de 2017 – Alentejo/Portugal

Tarde de êxtase com criança e como criança.

Hoje eu brinquei, MUITO. Hoje pude observar com muita clareza minha criança interior: curiosa, ávida pelo novo, energética, experimentando a vida com todos os sentidos, com o corpo, recebendo de braços abertos o presente como um presente.

Corri na areia atrás de meu amigo, Manel Tomé (6 anos), brincamos/brigamos de jogar areia um no outro. Fico chateada pela rumo desagradável que a brincadeira está tomando, coloco limite, ele não gosta. O convido pra conversar, ele não quer.

–  Tá bom, agora não precisamos conversar, tome seu tempo… mas vamos conversar, ok?

Depois do almoço, dou a mão pra ele e pergunto se podemos então falar sobre o ocorrido. Vamos de mão dadas sentar no meio fio da pacata vila. Explico que quando não gostamos de algo temos que colocar nossos limites para que uma situação não seja chata para nós, e que é legal o outro respeitar esse limite para que possamos seguir brincando e nos divertindo, juntos.

– Então… quando a gente pede para o outro parar por que está nos magoando a gente para, ok? Vale pra mim e pra você, combinado?

– Combinado!

Imediatamente começamos a brincar de novo, fingimos que toda vez que um carro passa temos que tirar o pé do asfalto se não ele nós “pega”, como um jacaré no rio. Andamos de skate, rodamos peão e o equilibramos em nossa mãos, queixo, nariz – ou pelo menos tentamos – sentimos.

– É gostoso né? Faz cosquinha boa.

Pegamos docinhos do pote do salão de beleza de uma amiga que fomos visitar.

– Ih, Olha a cegonha!! – Avisto um ninho enorme de cegonha em cima de um poste.

Começo a rir sem parar, e o meu amiguinho repete o mesmo gesto. Se impressiona com a cena pouco convencional, inesperada e em seguida se põe a gargalhar… ficamos por minutos sem conseguir respirar! Quem diria, um ninho de cegonha num poste, motivo mais que o suficiente para um ataque de riso.

Lemos (tento ler) um livro em francês pra ele – me coloco numa posição de aprendiz, sem medo. Peço ajuda a ele (que fala francês fluente), peço pra repetir, pra me ensinar, rimos da minha dificuldade e dos meus “erros”. Inventamos um novo e assustador jeito de falar a palavra “fantôôôme” (leia como uma voz assustadora de monstro, de fantasma), rimos sem parar do fantasma desenhado na capa do livro, um fastasma-meia. Descobrimos mais tarde, ao pôr-do-sol, uma maneira de equilibrar nossos corpos segurando um a mão do outro, brincamos de trampolim numa simples tábua de madeira apoiada no limite de um buraco. Ele pede pra eu pular na ponta pra ele pular mais alto na outra ponta  – Física, todos já sabemos, só não sabemos que sabemos. Sabemos no corpo, na repetição, na tentativa e no erro, sabemos desde crianças, no balançar do balanço, na brincadeira de gangorra, no queimar-se ao tocar a água quente, em cair e se levantar.

IMG_1426
Manel experimentando. Quinta Good Muda (Alentejo/Portugal). Foto por: Ju_nas.Marés

Durante o jantar meu amigo começa a indagar sua mãe.

–  Mãe, qual a melhor coisa que aconteceu na sua vida?

– Você nascer! –  Ela responde.

– Mas e se você tiver outro filho?

Grande oportunidade. Interrompo seu diálogo com sua mãe, e com o aval dela começo…

– Calma que agora vou te falar uma “parada” muito maneira!

Na manhã daquele dia esse rapazinho fez um novo amiguinho, um passarinho que parecia estar machucado, precisando de ajuda. Ele cuidou do bichinho, deu comidinha, carinho, ficaram amigos. O passarinho confiante da amizade se empoleirava confortavelmente em seu dedinho. De repente o passarinho bateu asas e voou, se foi. Meu pequeno amigo ficou bastante triste de não ter mais seu amiguinho por perto. Dizia sentir saudades do amiguinho voador, queria comprar um para poder lembrar do amigo que se foi. Já naquele momento tentei mostrar-lhe que o amor não ia embora com a distância dos dois e que passarinho quer mesmo é ser livre!

18588707_10213456929480397_4589752325392330856_o
Manel Tomé e seu amiguinho. Quinta Good Muda (Alentejo/Portugal). Foto por: Joana (Mãe)

– Lembra do passarinho que você cuidou e que foi embora? Você ama ele e ele ama você. Ele foi embora e mesmo assim você não deixou de amar ele, nem ele deixou de amar você. E se vier outro passarinho, você vai ama-lo também, não é mesmo? Isso porque o amor não tem tamanho. Com filho é a mesma coisa, se você tem um, dois ou quantos forem, você vai ama-los igualmente, porque o espaço onde fica o amor, o coração, não  tem tamanho, é infinito!!!

– Ahhhh,  é aquele 8 deitado não é? – o pequenino faz referência ao símbolo do infinito (∞) que representa a ausência de começo e fim, o amor eterno.

– É esse mesmo…

Ele faz alguma pergunta, que já não lembro mais, em relação ao tempo, falo que no infinito também não tem tempo.

– Ahhh, então o infinito é do tamanho do meu corpo? – ele pergunta apontando para seu pequeno corpinho de um ser de 6 anos.

– Não, não isso é “tamanho”, infinito não tem tamanho, ele é tudo e nada ao mesmo tempo, e também não tem tempo no infinito.

A noite continua. Vou para fora da casa para falar ao telefone com Caru Lila. O pequeno aparece por ali.

– Uauuuu, olha esse céu, olha o céu cara!!! – Já é noite e o céu está super estrelado.

– Fala pra ela que tem um monstro aqui. UARRRRRRR (som de monstro) – Manel tentando assustar Caru do outro lado da linha, do outro lado do mundo.

Pra fechar com chave de ouro, a noite termina com mais um incrível diálogo que aconteceu graças a uma experiência ocorrida na manhã daquele dia e que culminou naquela linda noite.

De manhã meu amiguinho tentou escalar seguidas vezes um poste, eu fui lá mostrei pra ele como fazia, escalei até o topo, dei dicas, falei pra ele testar coisas diferentes: sem sapatos (não deu), sem meias (ainda não deu). Falei pra ele continuar tentando, ajudei-o a segurar o poste colocando minha mão firmemente em volta de sua pequena mãozinha para que ele pudesse se concentrar em subir os pés e assim dar o próximo “passo”. Depois de diversas tentativas, talvez dez, ele finalmente conseguiu, subiu até o topo do guarda-sol. Fiz questão mostra-lo o porque  de ter conseguido fazer o feito: tentou, tentou e tentou de novo, foi persistente!

À tarde, ao sair da praia pedi ajuda dele para recolher lixo que encontramos na areia. Um dos lixos que encontramos era um adereço luminoso, daqueles que você “quebra” e se ilumina no escuro, brilha. Guardamos o objeto para mais tarde testarmos se ainda funcionava. Como caiu a noite ele me pede para verificarmos se o “brinquedinho” ainda brilhava no escuro. Infelizmente não funciona mais. Eu então falo com certa de preocupação pela possível decepção dele:

– Valeu a pena tentar.

E Manel responde com a maior serenidade:

– É vale a pena tentar.

O dia termina, me sinto completamente realizada em ter a oportunidade de brincar com criança, como criança, tendo ainda a clareza, a delicadeza e o cuidado de tocar e falar sobre assuntos tão importantes com tanta leveza.

“Eu fico com a pureza
Da resposta das crianças
É a vida, é bonita
E é bonita

Viver
E não ter a vergonha
De ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser
Um eterno aprendiz (…)”

– Gonzaguinha

Obs.: A divulgação do texto e as imagens foi autorizada por Joana mãe de Manel.

Um comentário em “Hoje eu brinquei

Adicione o seu

  1. O mais legal das relações humanas é que, para qualquer pessoa que entregamos um ensinamento, SEMPRE também podemos aprender algo de volta. É só termos a sensibilidade para permitir a troca!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

Voe Nessa

Uma viagem em benefício da Educação e da Sustentabilidade

%d blogueiros gostam disto: