Estranho

 

Hoje o dia amanheceu estranho. A pressão estava alta, o tempo chuvoso e uma ondulação enorme entrava na baía. Uma acordou com um tristeza sem motivo aparente, outra com uma vontade sedutora de ficar lendo na cama, e as duas definitivamente acordaram estranhas. Mesmo assim fomos surfar. Chegamos no pico e depois de alguns minutos constatamos, “a ‘vibe’ tá estranha”. O clima que normalmente é descontraído tava pesado, o mar estava cheio de gente, gente surfando, em cima de gente, onda que nem tinha. Tinha sim era muita gente.

Decidimos partir para casa e ao caminhar pela praia avistamos algo muito estranho: a linha de maré na areia era formada por milhões de micro-plásticos. Seguimos caminhando e a linha de lixo era interminável.

Uma linha interminável de plástico.

Ao ver aquilo começamos a nos sentir ainda mais estranhas, inquietas, com raiva! Da boca, a reação saiu em forma de palavrão: Caralho! (sim, palavrão; as emoções eram fortes). Caminhamos mais e a estranheza foi se transformando em DESESPERO e em uma sensação de IMPOTÊNCIA. Começamos a refletir se não teríamos acordado estranhas já sabendo, em algum nível, que esse episódio ia acontecer. Quem sabe, estávamos nos preparando.

A força da ondulação, formada por dois ciclones no Pacífico Sul, trouxe para a costa não somente ondas maravilhosas para surfar, mas também a realidade da nossa sociedade consumista e descartável. Um padrão de comportamento que se revela e se repete: inebriados, nesse caso pelas ondas, se torna mais “fácil” não enxergar e não fazer nada para mudar a situação.

Desespero.

De onde vem tudo isso? De onde vem tudo isso tem muito mais. Nossas quatro mãos não foram (e nunca serão) capazes de coletar e carregar todo esse detrito para a “destinação final adequada”. A quantidade de micro-plástico é infinita e os pedaços, tão pequenos, que se confundem com a areia.

Um dia diremos às nossas crianças que o mar trazia conchas de presente ao invés de plástico e que as praias eram feitas de pedras e areia, apenas pedras e areia…

Peraí, esse dia já chegou, é a realidade do Agora. Desespero.

Esse não é um problema dos países “em desenvolvimento”. Antes de estarmos juntas, Ju passou uma temporada na Europa praticando esportes e vivências na natureza e lá ela sentiu o mesmo DESESPERO e IMPOTÊNCIA ao se deparar com lixo em TODAS as praias que visitou, do Mediterrâneo ao Oceano Atlântico, inclusive nas praias mais remotas. A realidade que ela encontrou por lá não foi menos pior do que a que vimos aqui em Pavones, até por que paremos para refletir: não há separação. A natureza não conhece fronteiras ou bordas, estamos todos conectados por oceanos; o que acontece do outro lado do mundo afeta diretamente o que acontece do seu lado do globo.

O que a gente consome e descarta não vai fora – pra fora de onde iria? – O que descartamos pode até sair do alcance do olhar, mas permanece no planeta em algum lugar, seja em Aterros Sanitários, Ilhas de Lixo no meio dos Oceanos, ou no Fundo do Mar, para ser confundido por comida pelo peixe que possivelmente vai ser servido no prato de alguém. À  essa afirmação pode-se argumentar: “Eu reciclo o meu lixo!” Mas a verdade é que a não ser que você trabalhe numa Usina de Reciclagem, o que se faz é apenas a separação do lixo, o que não garante que ele chegue ao seu destino final pois ele pode ser interceptado no caminho por chuva, animais, vento e etc.

Ainda, em nossa sociedade, a reciclagem é super estimada e elevada à solucionadora de todos os problemas, mas o que muitos não sabem é que no Brasil ela é apenas a 4º colocada na ordem de prioridade de como gerenciar os Resíduos Sólidos (Lixo); a primeiríssima é a Não Geração dos Resíduos, o que significa quase diretamente consumir MENOS e com CONSCIÊNCIA! Além disso, a reciclagem demanda enorme quantidade de energia em seu processo: coleta, transporte, separação, transformação do material e redistribuição. UFA! Tudo isso demanda muita energia humana e de combustível, fóssil!


 

Um dia vai ser estranho extrair “dinossauros” em forma líquida do fundo dos mares. O que é Petróleo se não Matéria Orgânica (dinossauros, plantas, e e outros seres vivos) pressionada por camadas e camadas de sedimentos ao longo de Bilhões de anos.

Um dia vai ser estranho usar plástico de forma descartável. Plástico é Petróleo, que demanda enorme quantidade de energia para ser extraído, transportado e transformado em “maravilhosos” objetos.

Um dia vai ser estranho nossa comida ser embalada e transportada em plástico. “Comida” artificial, processada, temperada à conservante; comida de verdade tratada como artificial. Comida como produto de consumo e não como nutriente para corpo e alma.


 

Se tudo o que falamos parece exagero ou teoria da conspiração te convidamos a observar o ambiente ao seu redor e seus hábitos. Na próxima caminhada pelo quarteirão e/ou pelo bairro, dê uma olhada na quantidade de lixo plástico no chão! E pra onde vai? Pro mar! (ver vídeo). Observe em sua próxima compra no mercado quanto plástico (embalagens e sacolinhas) vai pra casa junto com a comida, e por quanto tempo você realmente faz uso desse plástico. Quanto desse material é quase imediatamente descartado? A média de tempo de uso de uma sacola plástica é de apenas 12 minutos! Imagine só, bilhões de anos para formar o petróleo, enormes quantidades de energia e dinheiro usados para extração, transporte e transformação do mesmo para que em poucos minutos seu destino seja um Aterro Sanitário. Um material com tanto valor agregado sendo descartado como se fosse uma casca de banana, que ao contrário do plástico é facilmente compostável, transformada em nutriente que rapidamente volta para o ciclo natural.

Respira…

Se assim como nós você se sente sobrecarregado com tudo isso, Respira. Compartilhamos aqui algumas das ações que incluímos em nossas vidas para começar uma mudança.

Entendemos que mudanças, com frequência, podem ser difíceis. Para que um velho hábito possa ser aos poucos transformado é necessário nutrir um novo que o substitua. É importante tomar um passo de cada vez. As ações a seguir já fazem parte da nossa vida há um tempo e são possíveis tanto no contexto urbano quanto na vida de um viajante (nossa realidade do momento):

Carregar um kit “Refeição ZERO plástico”: Garrafa e/ou copo reutilizável, talheres na mochila; recusar canudos.

Perceba como a utilização de utensílios plásticos te impede de saborear a comida da mesma forma.

Tome o canudo como exemplo, ao usá-lo o alimento passa mais rápido pela boca transformando completamente a experiência prazerosa de comer. A comida deixa de tocar e preencher sua boca e você perde a oportunidade de sentir textura, temperatura e sabores. Além disso, quando você ingere um líquido através do canudo suas papilas gustativas deixam de ser ativadas, e a digestão que deveria começar na boca, com a quebra dos nutrientes pela saliva, não acontece de forma completa.

O que geralmente acontece quando comemos com talheres, copos e pratos descartáveis é que o momento de se nutrir adquire a mesma qualidade descartável dos utensílios. Comemos tão rápido que não nos permitimos de fato apreciar o momento. Considere diminuir a velocidade e quem sabe ao invés de tomar o açaí correndo na rua, se presenteie o tempo para desfrutar do alimento sagrado.

Para finalizar o Kit, falemos da garrafa reutilizável. Um ser humano precisa beber uma grande quantidade de água por dia para se manter hidratado. Imagine se toda essa água for proveniente de garrafinhas plásticas. É surreal! A quantidade de água necessária para produzir a garrafa é maior do que a quantidade de água que nela está contida (e que você vai beber). Carregar uma garrafa na mochila te permite se hidratar ao longo do dia sem gastar um tostão! Sim, de acordo com a Lei Estadual (RJ) 7047/15 “bares, restaurantes e estabelecimentos similares ficam obrigados a servirem água filtrada, de forma gratuita, aos seus clientes”, ou seja, em qualquer estabelecimento que você estiver seu acesso a água é garantido pela Lei, “de Grátis”.

Outros estados Brasileiro também possuem Leis similares, procure se informar.

Coletar lixo sempre que for a praia. Essa é uma prática bastante autoexplicativa, quando estiver na praia colete seu lixo e talvez também o lixo deixado pra trás por outras pessoas e deposite-os nas lixeiras. Ao incorporar essa ação, você provavelmente se surpreenderá com a quantidade de lixo que vai encontrar. Não desanime! Quem sabe, depois de um tempo você se anima em organizar uma limpeza de praia com seus amigos.

Recusar sacolas de plástico. Na maioria das vezes que vamos às compras já sabemos que é dia de compras. Basta se planejar para levar consigo uma ou mais bolsas: bolsa de palha, de pano, mochila, e também o velho conhecido carrinho de mercado. Algumas vezes a compra acontece espontaneamente, sem planejamento, e o costume é o estabelecimento “oferecer” imediatamente sacolas plásticas para carregar sua mercadoria. Recuse! Muitas vezes já estamos com uma mochila ou uma bolsa que podem ser uma alternativa a sacola plástica.

 

 

Dia de Limpeza de praia na Formação de Yoga. Foto por: Stevie Ratto

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Ju no Dia de Limpeza de praia na Formação de Yoga. Foto por: Stevie Ratto

 

No contato diário com a natureza, nos sentimos integradas com o todo e nos nutrimos da beleza do mundo para transmutar estranheza, raiva e desespero em energia para essa mudança. Nossa integração com a natureza nos impulsiona a continuar nossas ações, a aprender mais e a compartilhar com mais pessoas uma visão de mundo onde o INDIVÍDUO  parte do TODO.

Se sentir o chamado compartilhe nos comentários suas experiências relacionadas ao tema.

Vamos juntos!

 

Inspirações e Referências:

http://www.menos1lixo.com.br/

http://www.pavonesyogacenter.com/

https://gov-rj.jusbrasil.com.br/legislacao/213086689/lei-7047-15-rio-de-janeiro-rj

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