Crônicas de Fronteira

 

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Se escorando pelas fronteiras.

 

dia 03 numa fronteira

Paso Canoas / Lado do Pacífico

Desde as 3h30 da manhã eu to me escorando pela Soda. Cheguei e a primeira coisa que fiz foi pedir um batido. A essa hora da manhã não tem batido… Todo bien. Mas não tenho gana nenhuma de comer o tradicional gallo pinto a essa hora da madrugada, sem contar que minha última refeição, às 18h, tinha sido uma variação sobre o mesmo tema: arroz e feijão.

O ônibus saiu às dez da noite de San José e pelos meus cálculos e da torcida do Flamengo a gente só tinha que ter chegado à fronteira às 5h e pouco.

O motorista entrou num portal. Só pode.

Fronteira às 3h30 da madruga não é legal. Aliás, não é legal em nenhum momento do dia. Circulação pesada de carros, caminhões, pessoas… É o entre lugar com a Costa Rica de um lado e o Panamá do outro. Uma espécie de limbo onde de tudo se vende, de tudo se compra e toda gente passa…

Fico urubuzando a soda já que é o único lugar aceso e limpo em vista. Sentei na calçada do estabelecimento, abracei minha mochila e consegui cochilar um pouco. Na sarjeta. Sono de fronteira, nem dormindo nem acordada. Acordo pra conversar com uns dos garçons e ele me mostra um potencial colar de anéis de lata. Tem tudo pra ficar bonito.

Não aguento mais ficar sentada apesar de estar exausta. Saí ontem do outro lado do país às 11h da manhã e só fiz andar de ônibus ou esperar no terminal por horas.

Horas.

Silêncio cheio de barulho ao redor.

Levanto pra caminhar… Da Costa Rica ao Panamá. Um homem chamado Giovanni inicia uma conversa comigo em inglês. Já – levemente – irritada de cansaço me recuso a falar o idioma. Estamos entre dois países latinos, bora falar espanhol. Papo vai, papo vem. Começo a me irritar mais quando o assunto vai pro “fato” de que no Brasil tem mais mulher com mulher do que em qualquer lugar do mundo. Como o papo chegou à esse lugar e que porra é essa que vc tá falando? Com a melhor educação que pude acessar no momento encerrei o papo e voltei pra soda. Já são 6 horas e o sol nasceu tem tempo.

Volto a me escorar… Praticamente não dormi e meus olhos tão ardendo de cansaço.

Dessa vez, um senhor vem e me pede que eu não sente naquela calçada porque é ali que eles vão colocar o lixo.

Tá bom.

Ele, docemente, me acompanha até uma cadeira de balanço e diz: dorme aqui, dorme aqui.

Pausa para a emoção.

Sento, me mexo de um lado pro outro até esquentar a cadeira e achar AQUELA posição. Não se passam nem 2 minutos de prazer quando outro homem, já não-doce nas feições caminha em minha direção falando: no, no, muy feo. Dormir no se puede. Y los clientes? Muy feo. Os gestos que acompanharam a fala foram os de quem espanta um cachorro.

Tá bom, to saindo.

Confesso, lágrimas escorreram suavemente pelas minhas bochechas.

Foi uma mistura de cansaço, solidão e momentânea incompreensão da natureza humana. Já deu de soda então né… Saí caminhando numa boa, atravessei a rua, comprei uma água de coco e me pus a escrever. O tempo que se arrastou por horas agora escorreu pelos dedos enquanto eu escrevia essas mesmas palavras.

Já são quase oito da manhã e o City Mall tá prestes a abrir. Vai dar tempo de comprar comida e pegar o ônibus pra Laurel. Pra casa, só tem uma opção, às 10h30, mas vai saber o que vai acontecer até lá.

Movimentados esses dias de fronteira…

12 de agosto de 2017

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dia 01 numas fronteiras

Paso Canoas – David – Changuinola

Bocas Del Toro/ Sixaola

Saí de casa, inocente, às seis da manhã, no primeiro ônibus pra frontera. Acordei umas cinco e pouco, botei um vestido fresco, uma blusa de botão, peguei minha mochila e minha bolsa de compras e me fui alegre e fagueira pra renovar meu visto e fazer compras pra casa. Cheguei na Aduana Tica e entreguei meu passaporte pra oficial na cabine. Ela folheou o documento por alguns minutos com um ponto de interrogação no rosto. Comecei a suar. Em seguida, ela chama a supervisora: começo a suar mais ainda e a dar início ao processo de hiperventilação – que dali pra frente só se agravaria. A supervisora me chama dentro da sala e fala que minha situação está irregular. Oi?

Eu explico pra ela tudo que me aconteceu – história essa que, possivelmente, vai ficar pra outra crônica – e ela diz que a única maneira de resolver minha situação é indo na Aduana Panamenha. Logo pensei: PHO-DEU. Caminhei do país pura-vida-sem-exército pro outro lado em que homens camuflados empinam seus fuzis com orgulho.

Entrego meu passaporte pro oficial Panamenho, explico toda a história de novo e ele entra com o documento pra discutir minha situação com outros oficiais. Nesse momento eu hiperventilava, suava copiosamente e dirigia um olhar frenético pra dentro da sala do Posto Fronterizo. Ninguém me falou nada por minutos, que pareceram horas… Até que uma moça gentil vem falar comigo e me diz que eu tenho que resolver minha situação no posto fronterizo do Caribe.

Pausa dramática. Mas isso é do outro lado do país, moça. Não existe uma alternativa? algo que se possa fazer por aqui, desse lado?

NÃO.

Meu rosto começou a se contorcer em várias formas: minha testa se franziu completamente expressando minha surpresa; meu olho começou a se movimentar dentro do meu crânio como se fosse uma bolinha de pinball, procurando por alguém pra abraçar e lamentar; minhas mãos começaram a suar e a hiperventilação, já acima mencionada, começou a ficar mais intensa.

Minha situação: eu estava em um limbo. Nem no Panamá, nem na Costa Rica, todo meu ser hiperventilante pairava em uma suspensão migratória.

Tá.

Me recomponho, atravesso a frontera Panamenha e entro numa vanzinha para David. Uma hora e pouco dentro de uma van conduzida por um motorista maníaco que provavelmente não sabe o que é frenagem de verdade.

Chego à pequena cidade, ando apressada por entre as pessoas no terminal procurando por outra van que me leve ao meu próximo destino. Hola, Guapa, como estás? Será que nenhum homem no mundo ainda percebeu que esse tipo de papo é ofensivo, desagradável e ainda por cima NÃO FUNCIONA!???? Enfim, esse é outro assunto…

Entro em outra vanzinha agora para Changuinola. São quatro horas e pouco por um caminho que me acalma. Montanhas de um verde luxuoso, cachoeiras nas encostas e um céu azul. Por algumas horas, meu corpo relaxa no acento, a musculatura se expande na pele e a respiração se alonga. Não dura muito. Chego à Changuinola e entro num colectivo pra Sixaola. Desço do carro e me dirijo a um guichê. Hola, como estás?

Respondo sinceramente: Más o menos, e o rapazinho do outro lado estranha minha honestidade. Explico tudo de novo.

Ele me convida a entrar. Adentro uma sala gelada dominada por homens. Começo a contar minha história e vejo olhares debochados em minha direção. Homens preparados para resolver questões diplomáticas não sabem o que fazer com a minha situação. Dá-se início uma movimentação pela sala, ligações para capitães, sussurros e risadinhas pelos cantos.

Alguém poderia me trazer uma água?

Depois de algumas horas sentada na sala fria um dos homens vem me dizer que eles vão resolver meu problema, MAS como as aduanas estão prestes a fechar eu teria que dormir pela fronteira e regressar no dia seguinte pela manhã. Ótimo.

Começo a caminhar pela fronteira, ainda de dia, e encontro um restaurante em ruínas onde uma mulher de corpo sinuoso se movimenta livremente pela cozinha. Me sinto atraída pelo ambiente, passo por uma estrutura que talvez um dia tenha sido um muro e um portão e me sento em uma das cadeiras de plástico na varanda da casa. Lá dentro, uma familia assiste a um Channel da vida. Ela caminha na minha direção e me diz que tem Casado. Claro. Manda ver.

Depois de alguns minutos ela me traz um prato, aparentemente simples, mas cheio de amor. Cada garfada me preenchia com a tranquilade que eu precisava, que eu queria.

Encontrei um quarto pra dormir. Um banheiro sem água e uma cama dividida em dois. Mais uma vez, sono de fronteira: nem acordada, nem dormindo; a situação ficou pior com a aparição de mosquitos e/ou pulgas que fizeram meu corpo coçar. Acordo, caminho tranquila pra aduana. Mesma equipe, mesmos homens… Situação regularizada e legalizada.

Bom, já que eu to aqui, vou ali encontrar uns amigos, descansar e comer bem. Puerto Viejo me acolhe com carinho e suavidade. Ligo pra um amigo, pergunto se ele quer almoçar e botamos o papo em dia à beira mar. Ele me oferece um quarto, uma cama, me cozinha o jantar e me empresta uma roupa. Se o dia anterior tinha sido uma sequência de desconexão este dia me presentiou com cuidado carinhoso e atenção.

Não é o fim dos dias de fronteira… mas agora Señora, sua situação está regularizada.

Gracias, muitas Gracias. Mesmo.

De carro pode até ser 7h 11 min m
Pavones (Costa Rica) – Paso Canoas (CR) – David (Panamá) – Changuinola (PNM) – Sixaola (PNM) – Puerto Viejo (CR)

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