O mar tá pra peixa

Outro dia o pai da Ju compartilhou conosco um texto de um grupo de facebook do qual ele faz parte. Ficamos de cara intrigadas: ele foi escrito por uma mulher falando sobre sua experiência no Body Surf (surfe de peito) – a autora Francisca Libertad (Chica).

Nós duas (Caru e Ju) surfamos de prancha, ou como ela descreve em seu texto “quilha”, mas de fato pouco ouvimos falar da presença feminina no bodysurf. Começamos a ler o texto e percebemos que apesar de serem “modalidades” diferentes as nossas experiências tem muito mais em comum do que podíamos imaginar.

13308150_10153506758641174_3458498922660226185_o
Ju cavando uma direita na Barra da Tijuca. Foto por @betonoval_photos

Já de cara nos identificamos com o fato de que todas nós praticamos esportes majoritariamente praticados por homens. Chica observa muito bem as diferenças físicas entre homens e mulheres, diferenças tais que não precisam ser um empecilho para que mais mulheres estejam no mar, ou em qualquer outro lugar buscando o que lhes traga prazer. Atualmente é muito mais comum ver mulheres praticando esportes considerados radicais – surf, escalada, skate, etc – mas o fato é que faz muito pouco tempo que estamos praticando essas atividades, logo é mais do que óbvio que tenhamos menos maturidade técnica do que os homens e é assim que se perpetua a noção de que mulheres não são aptas e/ou hábeis para os esportes.

O texto de Chica é um convite as mulheres a não se limitarem e abrirem seu leque de possibilidades. Temos ao nosso lado a intuição e sensibilidade femininas para superar diferenças físicas, nos posicionar melhor e escutar nossos próprios limites. Quem sabe a presença de mais mulheres na água ofereça uma possibilidade de troca em que homens possam compartilhar de sua experiência e mulheres de sua sensibilidade e cuidado.

Seres humanos mais cuidadosos, atentos, conscientes, sensíveis e felizes.

“SOBRE SER UMA BODYSURFER MULHER

Nem sempre o mar tá para peixa. Sei as diferenças estruturais entre o corpo masculino e o feminino, especialmente sob o impacto de um mar revolto, mas tendo a acreditar que o que nos difere é muito mais a maturidade técnica no esporte do que a anatomia, vide Briguitte Linn Wiedemeyer que com sua técnica afiada por décadas no surfe de peito e seu corpo esguio, segura qualquer bomba com maestria. No meu caso, faz pouco mais de um ano que me apaixonei pelo esporte, e sem mais nem menos ele tomou minha vida. Foi na primeira onda grande na Costa Rica, depois de semanas só brincando nas intermediárias, que tomei coragem e desci preparada para o pior, e quando ela me acolheu trilho abaixo com toda gentileza do que para mim era um gigante, que algo se ígneou no meu peito e se instaurou. Ali entendi que precisava sentir aquilo de novo. Para sempre. Já era.

Pego jacaré desde os onze anos com meu pai, cresci descendo marolinha abaixo direita e esquerda quando o mar quente seduzia. Nada empolgante. Nunca havia buscado uma onda. Nunca imaginei que pudesse sentir o que sinto agora. Nas manhãs em que o trabalho permite, acordo, checo as câmeras, pedalo do pontão do Leblon até o Leme buscando onda, mesmo se tiver bom no posto 11, bem em frente de casa, na fissura de estar melhor mais para lá. Vou com chuva, com frio, com mar revolto e mesmo grande, com tanto que esteja abrindo, eu me forço a cair. Nesses dias maiores, quando sinto medo de entrar, quando o coração acelera só de olhar da areia, vejo os meninos lá dentro e converso comigo, me digo que não preciso pegar de fato uma onda, só de estar lá no fundo, enfrentando desafio como esse já vale, faz parte do preparo. Me auto-animo para brincar de furar as ondas grandes, sentir a força da montanha sugando até o fundo, faço do medo diversão e transbordo sorriso ao estar lá dentro, mesmo que às vezes no sufoco – acaba que alguma hora sempre vem uma onda perfeita para eu descer, e o nervosismo vai se dissipando em riso. Sei meus limites. Sei que sou menina. Sei que menino também tem limite e cada um tem que saber o seu. Não tenho maturidade técnica mas tenho emocional para saber até aonde eu posso ir, independente do que os meninos estão fazendo, mas sem dúvida entrar no mar com eles é um incentivo e uma escola. Aprendo sem parar a cada segundo, desde a areia, às ondas, aos caldos, até as conversas de grupo do whatasapp, rsrs. Cair com os meninos para mim é tão bom quanto pegar uma onda, tem pilha, tem zoação, tem riso, mas tem muito desafio, obstinação e camaradagem, cada um com seu estilo abusado de surfar e de ser, todos ali sempre felizes de se encontrar, ao contrário da maioria dos quilhas que se olha como crowd. Sinto a comunidade do bodysurf como uma família, que se acolhe quando se encontra.

E falo isso tudo porque me encho de felicidade no mar e ainda não encontrei muitas meninas para compartilhar esse mundo de ondas e caldos, correntezas e calmarias. Queria espalhar que é muito mais possível do que parece, não digo exatamente fácil, demanda preparo e dedicação, mas indo aos poucos, se souber dar mergulho fundo, se nadar bem ou surfar então, fica difícil bater essa sensação tão profunda de conexão ao se alinhar o corpo com as correntes marítimas. Não tem essa de ser menina, não.

Aloha🌸🌊 “

 

Pura Vida Chica!!! Nós vemos na água. Obrigada pelo lindo texto.

Blog da Chica: http://franciscalibertad.blogspot.com.br

 

 

21534646_10154674659571856_1713361862_o
Francisca Libertad (Chica) “transbordando o sorriso”.

21557177_10154674659416856_1363582238_o
Chica em “profunda conexão, alinhando o corpo com as correntes marítimas”.
 

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

Voe Nessa

Uma viagem em benefício da Educação e da Sustentabilidade

%d blogueiros gostam disto: